Linguagem e cosmovisão

Caro leitor,

 

Tenho um desafio para você!

  Tente pensar sem utilizar a linguagem. Uma história ou uma frase que seja. “Puff, fácil!”, você deve estar pensando, “Imaginei várias imagens e criei minha história.”. Então tente criar sua história sem utilizar linguagem verbal e não-verbal, isto é, sem imagens, fotos, desenhos, gestos. Agora complicou, né?

A linguagem, seja ela verbal ou não-verbal, é a forma que nos comunicamos e expressamos, como nos fazemos entender. Ela é a base para as relações humanas, afinal, consegue se imaginar trabalhando em uma empresa, estudando em uma escola ou brincando com os amigos sem se comunicar? É na linguagem que carregamos a nossa visão de mundo, é através dela que damos e encontramos sentido nas coisas.

 

Já assistiu ao filme “A chegada” de Denis Villeneuve? É um filme de ficção científica que trata sobre teoria do relativismo linguístico. Uma raça de alienígenas chega na Terra com um único objetivo, trazer uma mensagem do futuro. A teoria do relativismo linguístico propõe que cada idioma carrega sua própria cosmovisão, ou seja, o português brasileiro, por exemplo, carrega toda a carga cultural, histórica, religiosa, social do Brasil. As palavras da língua portuguesa expressam a nossa história, nossas vivências, nossas lutas e vitórias. Os linguistas Edward Sapir e Benjamin Whorf criaram a teoria baseada em diversos estudos de campo e chegaram à conclusão de que a linguagem pode influenciar nossos pensamentos. No filme, a linguagem da raça alienígena utilizava as mesmas expressões para descrever passado, presente e futuro, o que fazia com que a concepção de tempo deles fosse cíclica, enquanto que para os humanos passado, presente e futuro são vistos de forma linear. Isto significa que os alienígenas já tinham conhecimento dos pensamentos do futuro, logo, eles sabiam o que ia acontecer e precisavam avisar a humanidade.

Para entender o que os alienígenas queriam, os governos enviaram equipes de linguistas para tentar se comunicar com eles. Ao passo que uma das linguistas aprendia o idioma da raça alienígena, ela também foi aprendendo a cosmovisão deles. Ela começou a aprender a enxergar o mundo como eles enxergavam, e com isso, conseguiu obter a percepção de tempo de forma cíclica e assim desvendou a mensagem do futuro que no fim salvou todo mundo no filme.

É óbvio que é um exemplo extremo, mas o ponto é que ao aprendermos novas linguagens, não estamos aprendendo apenas um bocado de palavras. Estamos recebendo toda a carga dessas palavras. Aquelas que eu falei no início, cultural, social, histórica. Aprender uma linguagem nova significa aprender a ver o mundo de novas formas, ter a chance de enxergar sob perspectivas diferentes, descobrir novas possibilidades, expandir a mente, entender porquês, desenvolver mais empatia e ser mais compreensivo. Portanto, fica meu convite: aprenda novas linguagens, inglês, espanhol, francês, russo, mandarim, árabe, braile, código morse, linguagem de sinais, hieróglifos ou qualquer outra que te pareça interessante e expanda sua cosmovisão. Te garanto que será no mínimo interessante.

 

Antes de ir embora, pega essa dica de leitura: 1984, George Orwell. A obra também faz referência a teoria do relativismo linguístico, só que ao contrário. Em vez de aprender novas linguagens para expandir a visão de mundo, um governo totalitário reduz o vocabulário da população na esperança de excluir conceitos como liberdade e ideia e assim limitar o poder cognitivo da população a fim de obter controle absoluto sobre tudo e todos.

 

Teacher Giovanna